13 de jan de 2015

Estuda, Renata, Estuda!

Estava eu assistindo ao programa Fantástico, domingo, dia 11/01/2015, quando o programa exibe uma matéria sobre turismo acessível. Embora a ênfase maior fosse para cadeirantes, lá pelo final da matéria aparece a Renata Ceribelli em um restaurante atendido por surdos no Canadá. A proposta do restaurante é incrível: os cardápios estão em língua de sinais, através de desenhos daqueles sinais, juntamente com a descrição do prato, e os atendentes são surdos. 
Para quem quiser saber mais sobre o restaurante, ele se chama Signs, e o site dele é este.


Nas imagens acima, capa do cardápio do restaurante e sinais para conversação básicas na língua de sinais americana.

Mas, como normalmente acontece quando assisto a matérias sobre acessibilidade/surdez na televisão, a alegria dura pouco. Logo a repórter lança aqueles termos antigos e ultrapassados, de uma vez só: o restaurante de SURDOS MUDOS onde se usa a LINGUAGEM DE SINAIS. Me senti frustrada, mas nada surpresa, afinal, toda a vez que uma reportagem é feita sobre o assunto, esses termos que nós lutamos tanto para esclarecer voltam à tona. Eu nem me presto muito a brigar cada vez que isso acontece. Me dá preguiça. Mas aí li na postagem de um amigo, o Vinícius (intérprete de Libras, professor, mestrando, formador de intérpretes e professores de surdos) um desabafo, ele mesmo não aguentando mais tanto descaso. Alguém comentou na postagem dele que era falta de informação, por isso os jornalistas usavam os termos errados. A esse comentário, Vinícius respondeu que essa desculpa não era mais aceita no mundo em que vivemos, com tanta informação e repetição desse discurso, isso já era preconceito com a comunidade surda. Essa resposta me chamou a atenção, e dei toda a razão pra ele. 
Primeiramente, a repórter não chamou as pessoas com deficiência física da reportagem de aleijados, mas de cadeirantes. Quando eu era criança e não conhecia nada sobre acessibilidade, se chamavam os cadeirantes de aleijados, Era normal. Porém, era um termo bastante pejorativo e foi substituído por cadeirante, bem mais condizente com a realidade das pessoas que precisam de uma cadeira de rodas para se locomover. Mas por que os surdos continuam a ser chamados de SURDOS MUDOS? Surdo e mudo são coisas diferentes. Minha mãe (que também não tinha nenhuma informação sobre isso na minha infância) me dizia: todo surdo é mudo, mas nem todo mudo é surdo. MENTIRA! Quase nenhum surdo é mudo (eu não conheci nenhum, NUNCA), embora todos os surdos que eu conheci conseguissem falar oralmente. Quando não o faziam era por uma opção pessoal, ou porque se sentiam mais confortáveis apenas sinalizando, ou porque não foram educados para isso, mas com treinamento, os surdos falam sim. Surdez é uma coisa e Mudez é outra. Não se diz mais SURDO MUDO há dezenas de anos, e foi a primeira coisa que aprendi quando comecei a me interessar pelo assunto, quando eu tinha uns 18 anos, era apenas uma estudante e o acesso à internet e informação era menor do que agora. Então por que existe tanta resistência dos jornalistas em pesquisar um pouco antes de produzir uma reportagem que é veiculada em um programa de televisão assistido por centenas de milhares de pessoas como o Fantástico? Repetir esses conceitos errôneos apenas reforça o preconceito que já atrapalha tanto a vida dos surdos; reitera que eles são incapazes de aprender outras línguas, que a comunicação com eles é difícil, que eles não conseguem entender os ouvintes; dificulta a inserção dos surdos no mercado de trabalho, na escola, na universidade e o acesso deles aos meios culturais e de informação, o que é um erro. 
Em segundo lugar, outra falácia transmitida nessa reportagem é de chamar a língua de sinais de LINGUAGEM DE SINAIS. Parece bobagem, parece um detalhe, mas não é. Da mesma forma, LÍNGUA é uma coisa e LINGUAGEM é outra. Existem vários tipos de linguagem: a linguagem do computador, da internet, a linguagem dos golfinhos, a linguagem do amor. E existem línguas, com suas características próprias, podem ser gestuais ou orais, e normalmente se estabelecem em determinados espaços geográficos: inglês, português, francês, alemão, Libras, ASL, e por aí vai. Por isso, falar "linguagem de sinais" é errado, porque transmite a ideia equivocada de que existe uma linguagem de sinais que seria universal, intuitiva, e que todos os surdos do mundo a usariam. Na reportagem, é possível perceber esse erro. No trecho em que a repórter Renata entra no restaurante ela fala: "Eu confesso que eu fico envergonhada de saber tão pouco sobre a linguagem dos sinais". Renata, você pode se envergonhar em não saber a Libras, língua de sinais do seu país, mas não se envergonhe por não conseguir se comunicar com os surdos canadenses, pois eles usam outra língua de sinais, então, é praticamente impossível você saber todas as línguas de sinais do mundo, assim como é praticamente impossível saber todas as línguas orais do mundo!

A repórter do Fantástico, Renata Ceribelli, sinalizando em um restaurante
Barros (2013) esclarece que, no Canadá, são usadas duas línguas de sinais diferentes: a ASL (Língua de Sinais Americana) e a LSQ (Língua de sinais do Quebec), assim como no Brasil, onde se usa a Libras (Língua Brasileira de Sinais) e a Língua de Sinais Urubu-Kaapor (língua dos índios Urubu-Kaapor do sul do Maranhão). Ou seja: surdos se comunicam através de LÍNGUAS DE SINAIS, que possuem todas os parâmetros para serem consideradas línguas, possuem gramática, sintaxe, variação linguística, não são universais e nem intuitivas, ou seja, precisam ser aprendidas ou adquiridas.
Quero deixar claro que não tenho nada contra a repórter Renata Ceribelli, inclusive gosto bastante dela, mas os jornalistas têm a obrigação de se informarem antes de disseminarem conceitos errados que vão contra toda a luta da comunidade surda, há tantos anos, no nosso país.

Referências do texto