31 de mai de 2013

Visita à Escola da Ponte: a escola que todos nós sempre sonhamos!

Conheci a escola da ponte duas vezes: a primeira, de ouvir falar e a segunda, de "conhecer", no início de 2013, durante o período de estudos que passei em Portugal.
Pelo que me lembro, tive contato inicialmente, com o já clássico texto de Rubem Alves (que depois foi transformado em livro) "A escola que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir" durante o curso de Letras da UFRGS (me formei em 2005). De lá pra cá, a ideia da escola dos sonhos de Rubem Alves que existe em Portugal povoou os meus pensamentos e diversas reuniões pedagógicas nas escolas em que já lecionei desde então. Qual professor nunca sonhou em trabalhar em uma escola em que os alunos se envolvessem fortemente na tarefa de aprender, que não fosse necessário gastar um tempão fazendo chamadas, discutindo notas e conceitos, organizando a bagunça, convencendo os alunos de que aquele assunto que você estava ensinando era importante pra vida deles sem mesmo estar convencido disso (mas era obrigado porque ele constava no programa obrigatório da disciplina)? Onde o seu trabalho fosse orientar os alunos, indicando a melhor maneira de realizar uma tarefa que ele está afim de fazer, indicando textos, leituras, sites, discutindo com ele sobre as leituras que ele fez? Tirando as dúvidas que ele tem sobre o assunto que pesquisou?
Bom, em 2013 realizei pelo menos o sonho de conhecer essa escola de verdade. Diferente de quando Rubem Alves a conheceu, em 2000, atualmente a escola foi transferida para a região de Vila de S. Tomé de Negrelos, em um conjunto de prédios onde foram reunidas várias escolas públicas da região. O mais curioso é que ela está no meio de outros prédios, onde estão outras escolas tradicionais, convivendo com uma escola tão diferente!

Chegando à Escola da Ponte

A visita à Escola da Ponte é agendada, por e-mail, e, ao chegarmos lá, é guiada pelos próprios alunos (no nosso casa, eram 2 alunas). Fui com meu esposo, e ao chegarmos lá, conhecemos mais quatro brasileiras que estavam fazendo a visita também, o que reiterou a ideia que todos tinham: a Escola da Ponte faz mais sucesso no Brasil do que em Portugal!

Abaixo, uma foto do novo prédio, com as queridas doutorandas da UCPel Silvânia e Cândida, também professoras do Instituto Federal Farroupilha (RS) que conhecemos na visita à escola.


A visita mostra como a escola funciona. As duas alunas são como guias de turismo, que nos levam pelas salas de aula e espaços da escola em horário de aula, enquanto os demais colegas estão estudando, e vão nos explicando como funciona o aprendizado, a avaliação, e todas as atividades neste espaço. 

O que existe de diferente lá?
Na minha opinião, a principal diferença da Escola da Ponte com as demais escolas ditas "tradicionais" é que, naquela escola, se acredita que o conhecimento precisa ser conquistado juntamente com a autonomia. Então, desde cedo, desenvolve-se a autonomia nos alunos, para que estes regulem seu aprendizado, avaliem constantemente suas dificuldades, aquilo que já sabem, o ambiente social onde estudam...
Meu objetivo com esta postagem não é dar uma aula sobre a Ponte, para isso existem os textos e diversos cursos ministrados aqui no Brasil (veja aqui); mas sim, mostrar a experiência que vi com meus próprios olhos, e questionar se realmente é tão difícil tornar nossos alunos mais autônomos aqui no Brasil.
As aulas na Ponte não funcionam do modo como organizamos normalmente. Não há divisões por idade, turma ou disciplina, mas sim por etapas, ou núcleos, como são chamados. São 3 núcleos: iniciação, consolidação e aprofundamento . Os alunos de cada etapa dividem-sem em grupos, e cada grupo escolhe um tema a ser pesquisado e desenvolvido. Depois, escolhem um professor que os orienta durante o desenvolvimento de seu projeto de pesquisa. Na sala de aula existem diversos materiais que auxiliam o aluno na pesquisa: livros, computadores, mapas, cronogramas de atividades, cartazes, como mostra a figura abaixo:


Para exemplificar como isso funciona, a turma dos alunos menores, "Iniciação", estava estudando os sabonetes. A partir da escolha do tema sabonetes, os alunos criaram diversas questões, como: do que são feitos os sabonetes? para que servem os sabonetes? Por que os sabonetes são escorregadios? Por que algumas pessoas têm alergia a sabonetes? quais são as formas dos sabonetes? E assim por diante, ou seja, é possível, a partir do tema, aprenderem muita coisa, mobilizando conhecimentos de várias áreas, como química, física, matemática, língua portuguesa... A partir dessas perguntas os alunos realizam pesquisas, e os professores intervêm com o seu conhecimento, instruindo as pesquisas, que posteriormente são entregues e apresentadas aos demais colegas. O mais interessante, na minha opinião, é o processo como isso ocorre. Os alunos auto-regulam sua aprendizagem a partir de alguns objetivos traçados. Na sala de aula há diversas folhas afixadas onde eles registram aquilo que já aprenderam e podem ajudar e aquilo em que precisam de ajuda. Ao lado, há um espaço para o professor colocar uma observação, após verificar se as dúvidas foram resolvidas.



E sabem aquele tempão que perdemos na sala de aula fazendo chamada, recolhendo trabalhos e depois entregando os corrigidos? Na Ponte esse tempo é muito melhor aproveitado. Em um canto da sala há uma mesa com várias caixas, identificadas. Lá cada aluno entrega seus trabalhos, e depois pega os trabalhos com as observações do professor. E a chamada? Na porta da sala de aula há uma lista com os nomes dos alunos e as datas. Cada aluno, ao chegar à escola, anota sua presença (pode ser combinado uma cor, por exemplo, e o aluno colore a data com aquela cor). Um aluno é responsável por anotar também os alunos que faltaram a aula, com outra cor. Simples, não?

Mesa de materiais com as caixas onde os alunos deixam seus trabalhos e os retiram, após a leitura do professor

Lista de chamada onde os próprios alunos marcam sua presença

Para quem quiser conhecer mais sobre a Escola da Ponte, o novo site oficial deles é http://www.escoladaponte.pt. Ali você encontra vários documentos e materiais sobre a filosofia e história desta escola revolucionária!
Eles também possuem uma página no Facebook, onde divulgam as atividades que desenvolvem lá (bastante inspirador).
As coisas que mais me inspiram são as coisas simples, possíveis e criativas. A Escola da Ponte busca aliar, na educação de seus alunos, autonomia, solidariedade e responsabilidade, e por isso está sendo estudada por diversas instituições em todo o mundo. Será que é tão difícil assim, nós também, transformarmos nossas escolas naquelas em que sempre sonhamos?

Abraço a todos,
Vanessa.

10 de mai de 2013

Telejornal diário em Libras da UFSC



Olá queridos,
Hoje quero divulgar com vocês um projeto muito interessante, de um telejornal diário em Libras. O projeto faz parte do TJ UFSC, o Telejornal Diário da Universidade Federal de Santa Catarina, que é um programa universitário com duas versões: uma em Português, veiculada pela internet, ao vivo, de segunda a sexta-feira, às 17h30 e outra em Libras - Língua Brasileira de Sinais, que vai diretamente para o Youtube, todos os dias às 19h30. As duas versões também podem ser encontradas no site oficial do TJ UFSC (www.tj.ufsc.br).



Em primeiro plano, o intérprete de Libras Wharlley, na versão
em Libras do TJ UFSC
 O Apresentador dessa versão em Libras é o Wharlley dos Santos, de 22 anos, que atua como intérprete de Libras desde os 18. Atualmente, ele é estudante do curso de Letras Libras na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). A versão em Libras do telejornal surgiu este ano, e a primeira edição foi ao ar em 18/03/2013, com o retorno das aulas da UFSC.



Wharlley nos contou que seu trabalho no telejornal começa bem antes da gravação da edição em Libras: ele participa, durante o dia, da produção das reportagens e das discussões sobre a pauta na redação do jornal. Às 17h30 ele acompanha a transmissão ao vivo da edição em Língua Portuguesa, e começa a interpretar e pesquisar sinais, nos bastidores. Às 18h15 ele começa a gravar a versão em Libras a partir do áudio da versão em LP, e vai interpretando. Como é possível ver nos vídeos abaixo, a tradução é feita em primeiro plano, com a imagem da televisão ao fundo, transmitindo a versão em LP do telejornal. Wharlley nos conta como esse formato foi decidido pela equipe: "na primeira não utilizávamos a televisão, era usado o chroma key (aquele fundo azul) e inserido digitalmente uma janela como o telejornal que já estava gravado; isso era possível, mas estava sobrepondo a minha mão, aí passamos a utilizar a televisão". Neste link é possível visualizar como o jornal era transmitido no início, com a inserção digital da imagem da primeira versão do telejornal; já neste link, a primeira edição com o monitor de TV atrás do intérprete.

Por enquanto, Wharlley é o único intérprete e responsável pela interpretação em Libras do telejornal, pois o projeto da versão acessível para surdos ainda não tem patrocínio. Abaixo, você pode assistir à edição em Libras do dia 08/05/2013.



Se você quiser conhecer um pouco mais sobre este projeto, conheça a página do telejornal no Facebook (clique aqui) e o canal do Youtube com os vídeos em Libras, postados diariamente, às 19h30.

Agradecemos ao Wharlley pelas informações prestadas, parabéns ao projeto e que ele cresça e se fortaleça ainda mais, levando informação à comunidade surda, tão carente de iniciativas como essa. Parabéns!

8 de mai de 2013

Filme "Ferrugem e Osso"

Oi pessoal!
Hoje quero fazer uma indicação de um filme sensível e ao mesmo tempo forte, com um ótimo roteiro, produção e atuação, que se chama "Ferrugem e Osso", originalmente, "De Rouille et D'os", de 2012. A produção francesa conta a história que pode ser relacionada com "Os Intocáveis", por narrar a relação entre duas pessoas com experiências e personalidades muito fortes, mas de mundo diferentes, e  que uma delas possui uma deficiência física, e a outra lida com isso sem menosprezar ou vitimizar o que tem a deficiência. A diferença é que em "Ferrugem e Osso" a relação deles vai além da amizade e se inicia uma relação amorosa (sem spoiler, isso dá pra perceber pelo trailer). Porém, acho que o que eu mais gostei do filme é que, embora a história da tragédia pessoal da personagem Stéphanie (vivida pela lindíssima Marion Cottillard) seja crucial para o enredo, ele não se foca apenas na deficiência dela (que é a parte "ferrugem"), mas também mostra os dramas e desafios vividos pelo personagem Ali (interpretado por Matthias Schoenaerts), o "osso" da dupla. 

As cenas que mostram as pernas de Stéphanie são impactantes, mas não gratuitas, e muito bem produzidas (eu fiquei pensando: como eles filmaram isso? mas pra quem entende de efeitos especiais, deve ser moleza).

Aí eu encontrei essa imagem na internet, que mostra a gravação de uma cena do filme, e a atriz Marion Cottilard usando meias verdes, para a edição da imagem:

As cenas deles nas praias do sul da França são lindas! E para quem ficou com vontade de assistir, deixo dois trailers.

Trailer 1


Trailer 2



Para saber em que salas de cinema o filme está passando, clique aqui.
Abraço, Vanessa.

Ah, não deixem de mandar seus comentários sobre o filme!!!

5 de mai de 2013

Uma escola de surdos em Lisboa

Olá pessoal

Estou feliz por estar de volta postando, depois de um período que precisei priorizar meus estudos. De volta ao Brasil, a minha casinha, aos meus projetos, e de volta ao Blog Vendo Vozes, quero aproveitar para contar a vocês um pouco das experiências que tive em Lisboa e que possam ser, de alguma maneira, úteis a vocês!

Hoje quero começar relatando uma escola de surdos que conheci chamada Escola Jacob Rodrigues Pereira. Estive lá por duas ocasiões, a primeira conhecendo a instalações da escola, a história, metodologia e projetos, através da grande ajuda do professor e coordenador Pedro Barros, e, em um segundo momento, pude assistir e participar de uma aula de Língua Portuguesa com a professora Susana Rebelo.

Sobre a escola
A Escola Jacob Rodrigues Pereira pertence à Associação Casa Pia, em Lisboa, desde 1834, quando começou como um instituto exclusivo para alunos surdos. Diferente de outras escolas, ela não é supervisionada pelo Ministério da Educação, mas sim, pelo Ministério da Seguridade Social de Portugal, e é a maior instituição de educação de surdos daquele país. Atualmente, também acolhe alunos ouvintes, embora os surdos ainda sejam maioria.

Fachada do instituto Jacob Rodrigues Pereira

O nome da escola é uma homenagem à Jacob Rodrigues Pereira, educador de surdos francês que viveu entre 1715 e 1780, e criou um método de ensino oral para surdos através de gestos, pois acreditou, na maior parte de sua vida, que o oralismo era a melhor opção para surdos. Ao final de sua vida, no entanto, ele se convenceu de que a comunicação em língua de sinais era uma melhor opção de comunicação e desenvolvimento dos surdos.

Busto de Jacob Rodrigues Pereira, na entrada da escola

Observação
Observei a aula de Língua Portuguesa de uma turma do 11° aluno do curso de ensino secundário profissionalizante de Desenho de Arquitetura. Embora a turma seja mista, durante algumas aulas (inclusive, as de Língua Portuguesa) os alunos surdos e ouvintes são separados. A turma de surdos era composta de 6 alunos surdos, com média de 19 anos. A turma era muito descontraída, e logo que a professora me apresentou a eles, se interessaram em me perguntar várias coisas sobre o Brasil, sobre a educação de surdos aqui e sobre a Libras. Alguns tinham muito interesse em vir para cá, e pesquisavam os sinais da Libras na internet, além de conheceram muitas coisas sobre o país, principalmente devido as novelas brasileiras que são transmitidas pelos canais de TV portugueses.


Queridos alunos da turma do 11° ano, eu à esquerda, e professora Susana à direita.


A aula era bilíngue, pois além da professora sinalizar em LGP (Língua Gestual Portuguesa), por vezes ela precisava oralizar para um dos alunos, que além de ter perdido a audição depois de adolescente é francês, e ainda está aprendendo a Língua Portuguesa. Que desafio, né? Então ela oralizada em português, e por vezes, em francês, para que o aluno também pudesse acompanhar. Uma outra curiosidade foi o tópico da aula: teatro, que lá também é competência do professor de português (Desafio 2!) Como aqui no Brasil, não há livros didáticos de LP para surdos, e os professores acabam desenvolvendo os materiais, com muita criatividade e recursos visuais. A sala de aula conta, além do quadro negro, de uma quadro "touch", daqueles brancos, como se fosse um monitor de computador gigante, que se pode clicar e tem vários recursos (todas as salas de aula possuem essa tela). Esse tipo de tecnologia é URGENTE  nas salas de aulas de surdos no Brasil, não acham? 

Agradeço à carinhosa recepção da Professora Susana, do Professor Pedro Barros, e dos alunos do 11° ano. Obrigada!

Para saber mais