24 de nov de 2011

O Diagnóstico Precoce da Surdez – qual o lugar da linguagem?

Olá pessoal!
Há algum tempo estou preparando esta postagem sobre o "Teste da Orelhinha", tão comentado e polemizado.
Primeiramente, o que é este teste? Segundo este site é um tipo de  triagem auditiva neonatal, parte de um programa de avaliação da audição em recém nascidos, indicada por instituições do mundo todo para diagnóstico precoce de perda auditiva, uma vez que sua incidência, na população geral, é de 1 a 2 por 1000 nascidos vivos. A Técnica utilizada é a de Emissões Otoacústicas Evocadas (EOAs). O Exame é indolor, com a colocação de um pequeno fone na parte externa do ouvido, com a duração por um tempo médio de 3 a 5 minutos.

Como ainda não sou mãe, nunca tinha visto a realização deste teste pessoalmente, até o mês passado. Em 01/10 nasceu meu primeiro sobrinho, Pedro, e quando os pais dele foram levá-lo para realizar o Teste da orelhinha, aos 21 dias de vida do bebê, pedi para acompanhar. Eles deixaram, assim como autorizaram a publicação das fotos da realização do mesmo, para eu poder mostrar a vocês do blog.

Teste da orelhinha do Pedro, aos 21 dias de vida.
O teste foi realizado em um centro clínico de Porto Alegre. O bebê fica no colo da mãe, e a Fonoaudióloga coloca um fone de ouvido no bebê, ligado a um aparelho e a um computador, como vocês podem ver. O aparelho emite alguns ruídos e mede a audição do bebê. Depois e Fonoaudióloga retira o fone e, com o bebê dormindo, realiza alguns testes para ver se ele reage. Com o Pedro deu tudo certo, ele tem uma audição perfeita, mas o que acontece quando o resultado é outro?

Sempre pensei que o Teste da Orelhinha só oferecesse benefícios para o bebê. Porém, em junho, ao assistir uma comunicação da Profa. Dra. Maria Cecília de Moura no INPLA, na PUC-SP, percebi que nem sempre é assim. Segundo ela, muitas vezes, quando o diagnóstico do teste é uma suspeita de perda auditiva, a mãe fica sem saber como agir com o bebê, muitas vezes deixando de se comunicar com ele, e provocando uma ruptura no vínculo entre eles.
Entrei em contato com a Professora Cecília Moura, que gentilmente escreveu um artigo inédito, para o blog, a respeito deste assunto, que publico a seguir.

O Diagnóstico Precoce da Surdez – qual o lugar da linguagem?
Profa. Dra. Maria Cecilia de Moura
Curso de Fonoaudiologia
FACHS
PUC-SP

Se o bilinguismo para Surdos deve ser pensado como uma realidade que possibilitará que os Surdos possam se constituir como seres da linguagem, devemos refletir sobre a época em que eles devem ser expostos à língua de sinais.
Existe um período optimal para a aquisição da linguagem para qualquer indivíduo. Sabe-se que crianças apartadas de uma condição normal de aquisição de linguagem não desenvolverão linguagem de forma normal (RODRIGUES, 1991). Para que isso venha a acontecer é necessária uma relação afetiva num ambiente estimulador. Isso pode vir a não acontecer com bebês surdos que são diagnosticados muito cedo. As famílias, por acreditarem que não serão entendidas pelo seu bebê, sentem-se incapazes de se comunicar com ele.
O bebê precisa ser considerado como alguém que poderá desenvolver linguagem (BOUVET,1990). As funções neurológicas e psíquicas trabalham juntas e há um momento certo para o desenvolvimento da linguagem. Ninguém esperaria que crianças ouvintes sejam expostas tardiamente à linguagem por nenhuma razão. Mas, o diagnóstico precoce da surdez pode fazer com que isso aconteça porque quando a família descobre a surdez de seu filho ela pode parar de falar com ele.
Com o diagnóstico precoce que é feito para que a estimulação auditiva comece o mais cedo possível (via aparelhos auditivos ou implantes cocleares) pode haver uma quebra no circuito de comunicação e se poderá privar a criança de linguagem.
Os especialistas argumentam que quanto mais cedo for feito o diagnóstico, mais normal será o desenvolvimento da criança (YOSHINAGA-ITANO, C, 1998). De forma a permitir um desenvolvimento ideal de linguagem oral que não se sabe se irá acontecer ou não os especialistas evitam que uma relação natural mãe/bebê possa vir a acontecer (MADILLO-BERNARD, 2007).
As funções psíquicas e neurológicas trabalham juntas e existe um momento adequado para o desenvolvimento da linguagem (Rodrigues,1991). Ninguém espera que uma criança ouvinte seja exposta tardiamente à linguagem por qualquer razão que seja. Mas, o diagnóstico precoce da surdez pode fazer isso acontecer para os bebês Surdos. Quando é dito a uma família que seu filho “pode” ter uma perda auditiva, os pais podem parar de falar com ele. Isso acontece porque a surdez é algo desconhecido. Como se comunicar com alguém que não escuta?
Afinal, qual a razão do diagnóstico precoce? Ele é feito para que a estimulação auditiva comece o mais cedo possível. São citados exemplos de que o diagnóstico é tardio – mas de quem é a culpa? Não seria o caso dos médicos pediatras serem formados a fim de poderem diagnosticar a surdez frente às perguntas das mães? A escolha foi outra e de forma a “permitir” um desenvolvimento ideal da linguagem oral que ninguém sabe se irá acontecer, os especialistas podem vir a impedir o estabelecimento de uma relação normal entre a mãe e o bebê. Uma relação em que a mãe olha para seu filho, conversa com ele e o considera alguém que virá a ser e não como um estrangeiro com quem ela não sabe se comunicar (RAFAELI, 2004)
Estabelece-se aí um paradoxo: sem esse vínculo que seria absolutamente normal: uma mãe que fala com seu bebê, que considera que seu bebê é alguém que virá a falar, o desenvolvimento de linguagem pode ser seriamente prejudicado e o objetivo que os especialistas gostariam de atingir pode não vir a acontecer.
Os especialistas deveriam compreender o impacto do diagnóstico precoce da surdez no desenvolvimento do bebê Surdo desde que esse diagnóstico está relacionado à forma pela qual a família irá se relacionar e se comunicar com a criança recém nascida.
Essa preocupação não se encontra apenas no Brasil. A França tem se preocupado muito com essa possibilidade de ruptura de vínculo mãe/ bebê, como podemos ver com Madillo-Bernard (2007), psicanalista francesa:
"[...] mas, os psicólogos e psiquiatras especializados em crianças surdas temem que uma triagem e um anúncio no início do primeiro mês comprometam a instalação da relação mãe-criança e o estabelecimento da maternagem. Na ausência de risco vital, uma triagem demasiado precoce (período neonatal) dessa desordem que está ligada à comunicação não traz o risco de ser iatrogênica (i.e.,reação ou doença por efeito colateral), perturbando o processo de vinculação? [...] (p.41)."
Deve-se responder, antes de mais nada perguntas cruciais :
Os resultados sobre o diagnóstico precoce encontrados até agora apoiam o pressuposto de que ele precisa ser feito ao nascimento?
Por que evitar o uso de língua de sinais?
Qual é a garantia de que essas crianças serão iguais às crianças ouvintes como os especialistas afirmam?
Mesmo com boas habilidades auditivas, elas continuarão a ser surdas (sem que se permita que sejam Surdas). Afinal, se ela fizeram um implante coclear é porque são Surdas e não há nenhuma garantia que deixarão de sê-lo CAMPOS, Comunicação Pessoal, 2011).
Elas serão sempre colocadas numa situação de diferença dos ouvintes.
E, mais do que qualquer coisa – elas não estarão preparadas para a discriminação que sofrerão.
A única forma de se lidar com esse problema de forma a minimizar os danos é propiciar à família, de forma especial à mãe, um lugar em que eles possam ser ouvidos e acolhidos.
Logo que possível eles deveriam ter a possibilidade de entender que existem outras possibilidades, isso é, que os Surdos usam Libras, e podem se desenvolver muito bem, independente da oralidade que será algo a mais que lhes possibilitará uma inclusão social mais tranquila, mas que antes de mais nada eles continuarão Surdos. O modelo sueco já mostrou que isso pode ser feito (SVARTHOLM, 2008.). Além disso as famílias deveriam receber orientação em relação ao Surdo como membro de um grupo cultural que carrega uma diversidade e em relação ao papel da língua de sinais no desenvolvimento da linguagem do bebê. (BELLUGGI, 1980; Svartholm, 2008).
É muito importante que os especialistas da área médica e fonoaudiológica que são favoráveis ao diagnóstico precoce e ao implante coclear compreendam que, se existe um período crítico para o desenvolvimento do sistema auditivo (YOSHINAGA-ITANO; SEDEY; COULTER.; MEHL,1998), há também um período crítico para o desenvolvimento optimal da linguagem que pode ser possibilitado para o Surdo pela língua de sinais. Isso é muito importante se desejamos que os bebês Surdos cresçam em condições similares aos bebês ouvintes.
Concluindo desejo dizer que frente a uma realidade que já está presente para tantos pais algumas medidas são urgentes:
  • Apoiar a mãe no momento do diagnóstico precoce.
  • Mostrar as possibilidades e não as impossibilidades.
  • Esclarecer que independente das decisões tomadas (implante coclear, aparelhos auditivos) a relação com o bebê pode se dar de outras formas.
Sabemos que se a criança reage aos pais (e ela o faz visualmente) os pais irão reagir a ele, mas o primeiro passo é dos pais que só o poderão fazê-lo se souberem que seu filho é surdo, mas não incapaz de linguagem.Temos que possibilitar que os bebês Surdos possam crescer saudáveis e capazes de linguagem – os pais não devem parar de falar com eles porque eles não escutam e sim descobrir novas formas de comunicação.
Aos pais um conselho: procurem um fonoaudiólogo que possa explicar as vantagens do aparelho auditivo e do implante coclear (e os riscos também), mas que, antes de mais nada, respeite a comunidade Surda e sua língua. Afinal, seu filho é Surdo.
Bibliografia
BOUVET,D. The path to language. Philadelphia: Multilingual Matters, 1990.
MADILLO-BERNARD, M. Réflexion autour du dépistage précoce de la surdité au regard de la théorie de l'attachement. Dialogue. 2007, no175, pp. 41-48.
RAFAELI, Y. M. Um estrangeiro em sua casa. In: VORCARO, A. (ORG.) Quem fala na língua? Sobre as psicopatologias da fala. Salvador, BA: Ágalma, 2004 Coleção Psicanálise da Criança - vol. 15.
RODRIGUES,N. Organização Neural da Linguagem. In MOURA,M.; LODI,A.; PEREIRA,M. (eds.). A língua de Sinais e a educação do surdo. São Paulo: Tec Art, 1993.
SVARTHOLM, K. Educação Bilíngüe para os Surdos na Suécia: Teoria e Prática. In: MOURA, M.C.; VERGAMINI, S.A.A.; CAMPOS, S.R.L. de. Educação para Surdos: Práticas e Perspectivas. São Paulo: Livraria Santos, 2008.
YOSHINAGA-ITANO, C.; SEDEY, A.L.; COULTER. D. K. ; MEHL, A. L. Language of early and later identified children with haring loss. Pediatrics, 102: 1161-71, 1998
Agradeço à gentileza da Profa. Dra. Maria Cecília de Moura pela escrita do artigo, e aos pais do Pedro, Vívian e Jefferson Recus. Obrigada!



2 comentários:

Jaqueline disse...

Parabéns, cada dia que passo aqui no teu blog aprendo muito e esclareço muitas dúvidas que tenho sobre a surdez.

Pedro Witchs disse...

Muito bom! Como é bom encontrar artigos como este que conseguistes com a Profª Drª Maria Cecília de Moura, Vanessa! Muitas vezes nos detemos a escrever sobre surdez, língua de sinais, cultura e comunidade para pessoas que fazem parte dessa realidade. Este artigo vem ao encontro de todos. Dos que não fazem, dos que possivelmente farão e dos que já fazem parte. Parabéns ao blog e à professora Maria Cecília pelo texto.