3 de out de 2010

Entrevista exclusiva: Pedro Witchs

Olá pessoal! É com grande alegria que hoje divulgo a entrevista que fiz com Pedro Witchs, meu colega de projeto de pesquisa, e ex-aluno do curso Introdução ao Ensino de LP para Surdos (UNISINOS), quando nos conhecemos. Leia e comente!

Sobre o entrevistado
Pedro Henrique Witchs é ouvinte, cursa o semestre do curso de Biologia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS, é pesquisador do Grupo Interinstitucional de Pesquisa em Educação de Surdos – GIPES, bolsista de Iniciação Científica da Profa. Dra. Maura Corcini Lopes (Programa de Pós-Graduação em Educação da UNISINOS) e atualmente também é aluno do curso de formação de Tradutores/Intérpretes de Língua de Sinais da Ulbra. Tem 21 anos, nasceu e reside em Sapucaia do Sul. Apesar de tão jovem, somente neste ano Pedro recebeu dois prêmios com reconhecimento nacional por sua pesquisa: no início do ano ele recebeu o prêmio na categoria Estudante de Graduação, do Prêmio Construindo Igualdade de Gênero, promovido pelo governo federal, com o artigo Gênero e Sexualidade na Escola de Surdos. Agora, ele conquistou o primeiro lugar na área de Ciências Humanas e Sociais, Letras e Artes, do 8º Prêmio Destaque do Ano na Iniciação Científica, realizado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Com certeza, ninguém duvida que esse jovem professor-pesquisador irá muito longe.

Olá Pedro, é uma alegria para nós sua entrevista para o Blog Vendo Vozes.

Pergunta 1: Como surgiu seu interesse pelo mundo dos surdos?
Resposta: Olá, primeiro quero agradecer o interesse do blog pelo meu trabalho. É um prazer estar aqui para responder a uma entrevista, pois sou leitor deste espaço desde quando meu interesse pela cultura surda começou a criar forma. Digo “criar forma” porque acredito que meu interesse materializou-se a partir do momento em que comecei a aprender língua de sinais em meados de 2008. Posso dizer que a minha vontade em aprender língua de sinais foi uma dessas vontades que surgem do nada, porque antes de aprendê-la eu não conhecia surdos (pelo menos não o suficiente para eu sentisse necessidade de me comunicar com eles). Ou seja, meu contato com qualquer membro da comunidade surda era nulo. Eu gosto de considerar meu interesse em aprender a língua de sinais brasileira uma situação análoga à vontade que eu tive de aprender, por exemplo, a língua inglesa no início de minha adolescência. Claro que as pessoas estão mais expostas à cultura dos povos usuários da língua inglesa e isso é um fator que contribui para que se crie o interesse em aprendê-la. Contudo, gosto de saber que o meu passaporte de entrada ao “mundo dos surdos” se deu assim: despretensiosamente. Posteriormente ao fato de eu ter realizado um curso de LIBRAS de nível básico, sedento de saber mais sobre a comunidade e a cultura dos surdos, descobri que havia pesquisas sobre esses assuntos sendo realizadas na Unisinos. Consegui contatar a professora-pesquisadora que lidera as pesquisas do Grupo Interinstitucional de Pesquisa em Educação de Surdos (GIPES), a Profa. Dra. Maura Corcini Lopes, a fim de saber mais sobre o trabalho do grupo. Por sorte, ela estava selecionando bolsistas de Iniciação Científica, então eu me candidatei à vaga. Desde então, cada vez mais aprendo sobre esses temas abordados pelos autores dos Estudos Surdos em Educação. Inclusive, quero mencionar que o fato de eu realizar atividades de Iniciação Científica não faz de mim um pesquisador (ainda, hehehe), mas sim um aprendiz de pesquisador.

Pergunta 2: Como foi receber duas premiações com reconhecimento nacional apenas este ano?
R: Para mim, acima de qualquer reconhecimento, as duas premiações são um incentivo para que eu permaneça no caminho investigativo. Pretendo continuar desdobrando minhas pesquisas de forma comprometida com a sociedade e, principalmente, com a comunidade surda.

Pergunta 3: Na sua opinião, quais são os maiores desafios para o professor de Ciências e Biologia para surdos?
R: Em meu recorte investigativo (“recorte” porque faço uso de dados obtidos através de duas pesquisas maiores realizadas pelo GIPES), venho percebendo que os desafios enfrentados pelos professores dessa área de conhecimento específica são parecidos com os desafios enfrentados por qualquer professor de surdos que não tenha língua de sinais como primeira língua, independente da área de conhecimento. Poder pensar nas possibilidades de criação nessa língua, a meu ver, tem sido a maior dificuldade, pois, embora ela já seja uma língua oficial do país, parece ainda ser pensada apenas como uma ferramenta pedagógica, uma língua de tradução de conteúdos.

Pergunta 4: Como você avalia as políticas públicas atuais de educação de surdos no Rio Grande do Sul?
R: A proposta da inclusão escolar é uma realidade que perpassa a educação de surdos no Estado. A preocupação agora é em como esse trabalho está sendo encaminhado. É muito importante que as condições educacionais sejam igualitárias e, para isso, uma série de elementos são necessários aos professores e aos surdos matriculados nas escolas regulares. Sabemos, através das pesquisas vinculadas ao GIPES, que muitas escolas ainda não se adequaram à "Educação que nós os surdos queremos" (remeto-me ao documento elaborado pela comunidade surda do Rio Grande do Sul durante o Pré-Congresso ao V Congresso Latinoamericano de Educação Bilíngue para Surdos realizado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS em 1999). Se a preocupação com a qualidade da educação dispensada aos surdos não existir nesses espaços inclusivos, então é possível se perguntar que tipo de inclusão está sendo proposta.

Pergunta 5: O que você recomendaria para aqueles acadêmicos ou docentes que pretendem trabalhar com o ensino de ciências para surdos, ou que possuem alunos surdos em suas turmas “regulares”?
R: Aos que querem trabalhar com surdos: comecem a aprender língua de sinais o mais rápido que puderem! O professor que trabalha com surdos precisa ser fluente em língua de sinais. Sabe-se que, em nossa realidade, nem todos os professores ouvintes de surdos estão preparados para o trabalho de caráter bilíngue, mas essa etapa da formação docente deles precisa ser defendida, sem contar todos os outros compromissos que esses professores deverão ter em relação às especificidades da educação de surdos como, por exemplo, compreensão sobre a diferença cultural e a identidade surda. Aos que possuem alunos surdos em suas turmas regulares: se não há um profissional tradutor/intérprete de língua de sinais trabalhando em sua escola, procurem os direitos de seus alunos surdos. A escola precisa imediatamente se adequar aos seus alunos surdos começando pela contratação do profissional habilitado para esse serviço de tradução. Essa profissão acaba de ser regulamentada no Brasil e, na lei, é possível encontrar todas as recomendações que uma escola precisa para realizar tal contratação como, por exemplo, que tipo de formação o profissional deve ter, entre outras coisas. Após as barreiras linguísticas serem derrubadas, ou melhor, durante esse processo, o professor precisa pensar nas especificidades de seus alunos surdos a fim de garantir-lhes condições educacionais de igualdade.

Pergunta 6: Na sua opinião, qual a principal característica que deve ter um professor para trabalhar com surdos?
R: Acho que, tratando-se de característica, e antes de se pensar que o trabalho é com surdos ou ouvintes, precisa-se ter compromisso profissional com seus alunos. Quando digo profissional pode parecer que estou dizendo que seja preciso rigidez, aplicação de técnicas, etc. e que todas as habilidades calcadas na formação humanística do professor sejam ignoradas. Entretanto, não é assim que quero que entendam. Para mim, o professor é um profissional e, por isso, precisa lidar profissionalmente com qualquer situação que ultrapasse a função de ensinar exatamente pelo fato de ser responsável pela formação de outros que, assim como ele, são humanos. Para a prática pedagógica com surdos, penso que seja necessário que o professor desenvolva a habilidade de pensar na língua de sinais, explorar suas infinitas possibilidades de criação a partir da língua de seus alunos, ao invés de apenas expressar-se por meio dela.

Pergunta 7: Quais são seus projetos acadêmicos e profissionais para 2011?
R: Estou programado para concluir minha graduação no segundo semestre de 2011. No primeiro semestre, começarei a desenvolver meu trabalho de conclusão de curso e no meio do ano me formo no curso de formação de Tradutores/Intérpretes de Língua de Sinais na Ulbra. Enquanto futuro professor de surdos, é fantástico estar aprendendo tudo o que posso a respeito de tradução/interpretação de língua de sinais. A realização desse curso de formação tem sido muito útil acadêmica e profissionalmente. Espero realizar um bom trabalho articulando as três áreas de conhecimento: Biologia, Estudos de Tradução e Educação de Surdos.

Pergunta 8: Qual a importância da internet e do seu blog na sua formação acadêmica e como pesquisador?
R: A internet é uma ferramenta fundamental para o meu trabalho hoje. Através dela, tenho acesso a outras ideias, outros trabalhos nos quais posso me inspirar, pensar sobre, bem como posso divulgar o meu próprio trabalho a fim de contribuir com outros profissionais. Isso tudo sem mencionar que ela me permite contatar tais pessoas, redefinindo as possibilidades de trocas.

Pergunta 9: Como os interessados podem entrar em contato com você e ter acesso à seus trabalhos e projetos?
R: É muito interessante essa prática de manter um blog, por isso eu mantenho um também. Não é nenhum Blog Vendo Vozes, nem nada, mas é higiênico, viu? Podem visitá-lo sempre que quiserem, hehehe. Nele é possível encontrar vários canais de acesso a mim e aos meus trabalhos, desde Orkut a Twitter, e passando por vários outros também. Os interessados podem acessá-lo através do endereço: http://biologiaemlibras.blogspot.com/

Por favor, deixe uma mensagem para os leitores do Blog Vendo Vozes....
Muitíssimo obrigado pela atenção de vocês, leitores que chegaram até essa parte da entrevista. Desejo que todos permaneçam frequentando este blog, pois ele é um veículo de informação muito importante e confiável tratando-se de assuntos que envolvem a surdez. Espero que tenham gostado, podem comentar, a Vanessa permite que vocês comentem aqui, não é proibido. Se gostaram, não gostaram críticas, sugestões, podem mandar, porque assim como vocês, eu costumo vir aqui e lerei seus comentários (até os responderei se precisar). Enfim, obrigado mesmo, Vanessa, pela oportunidade. Confesso aos leitores que eu fiquei muito empolgado quando a Vanessa, na última reunião geral do GIPES, me convidou para esta entrevista, porque sei da importância deste blog. Muito obrigado.

Muito obrigado, Pedro, pelo seu tempo e atenção conosco. É uma grande alegria poder divulgar seu trabalho e contar com sua colaboração em nosso Blog Vendo Vozes.

Atenciosamente,
Vanessa Dagostim Pires.
Eu e o colega Pedro na UNISINOS.

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